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Foram caindo suas gotas mansinhas no telhado da minha casa de zinco. Os sapos (meus vizinhos fiéis) coaxavam nas pequenitas gotas de águas que iam formando um lago debaixo da varanda. Nisso, lembrei-me da borboleta amarela que vinha ao meu encontro sempre que saía de casa para o trabalho. E uma sensação de arrepio apoderou-se do meu corpo exausto de noites mal dormidas por pesadelos com seres do Além que, teimosa e persistentemente, vêm assombrar-me durante o sono. Não sei, exatamente, o que terá passado. Mas a memória (a musa dos Deuses) esta nunca nos é ingrata, porque traz-nos, ainda que do fundo sombrio existencial as reminiscências de um passado sempre latente e presente (ou ausente?).
Nessa viagem memorialística desaguei-me (como se fosse água cristalina do rio de Onguran) para as mansas (e, às vezes, cretinas) águas do rio Geba unindo, ao que tudo parece, o quase impossível. Lembrei-me do coaxar dos sapos nesta madrugada de 1º de Novembro. Lembrei-me ainda da madrugada do mesmo primeiro de Novembro do ano transato quando, a bordo do avião da TACV, deixava a cidade da Praia para tentar a sorte na cidade de Bissau (um pródigo de volta ao lar, materno lar). Esta viagem era resultado da escala na capital caboverdiana, vindo do Brasil, quando tinha concluído com Mérito, diga-se de passagem, meu Doutoramento na Universidade de São Paulo, Brasil.
Sei que pode, aos olhos do leitor d’O Democrata, parecer que esta crónica seja intimista; mas, se o ler, com os olhos da memória, percorrendo o horizonte temporal da nossa história menina, perceberá o diferencial em termos espacial. Não estou a referir-me do cálculo diferencial matemático que, como deve saber caro leitor, temos muito temor a matemática; mas, tão-somente, de que o 1º. de Novembro de 2012, incerto, insípido, sujo (talvez), sem beira nem eira ainda alimenta a esperança dos que continuam sendo os viventes testemunhos da calçada da nossa civilização di sibilisadus de corações sujos.
O 14 da má asfaltada Avenida 80 ainda paira sobre nossas crenças-aranhas. Suas teias enlaçam-nos para um destino indesejável que tem por saída o abismo. É hora de acordarmos ante ao deslize que insiste em ser a nossa única saída. A força, irmão, não reforça o progresso; porém, o retrocesso. Que a chuva deste novembro atual não encontre as ideias indigestas do novembro ancestral. Nunca! Que Nossa Senhora di San Bacil nos proteja do possível descalabro.
São lembranças do meu tempo de menino (que belos tempos aqueles) de brincadeiras criativas, de sonhos em que almejávamos voar imaginativamente pelos céus da pátria outrora tão celebrada, tão especial, tão singular, cujos princípios fundantes eram nobres. Eram tão exaltados que sentíamos as melhores crianças do mundo a viverem no paraíso terrestre. Tempos que já lá vão!
Volto à chuva inaugural de Novembro deste ano. Quando batia na kankra da minha casa parecia tão açoitadora e, simultaneamente, tão meiga. Tinha imensa vontade de entrar debaixo dela para tomar um banho de purificação, um banho de bênção espírita. Não obstante não poder, na medida em que os donos, de momento, da cidade podiam pedir-me a dança do house. É assim que se escreve? Perdoe-me, caro leitor, a minha santa ignorância nos assuntos da marginalidade. A marginalidade tornou-se sinónima da poweridade. Quanto mais fora da lei mais legal fica o brother.
Estamos ab initium do abismo. É só colocar o pé no acelerador e pisar fundo. Que eu saiba a vida citadina está a transformar-se numa grande sinfonia desarmónica.
A chuva de que falava fez com que eu abrisse a janela para respirar-me um pouco do ar puro que emanava do vento profícuo que vinha ao meu quarto, invadindo-me o ser. Um frio intenso bateu-me (malcriadamente) no rosto. Quis gritar, mas não podia. Afinal era apenas uma gota de chuva que vinha como se fosse tempestade. E, por isso mesmo, não podia (e nem devia, é claro) ceder-me neste embate entre a obstinada fé no devir e a desesperança rotineira.
Energias e vontades, às vezes, faltam-me. Todavia, nunca me falta (e nunca me faltou) a teimosa crença de que os homens podem mudar de comportamento. Se para pior (a ver vamos), mas acredito que esta mudança será, precisa e necessariamente, para melhor. Que o caminho a trilhar é o mesmo com o de comprometimento com o sumo bem. Mesmo que a temperatura pareça elevada. E não se consiga calcular o grau celsius da mesma.
Ora, voltando mais uma vez à chuva, quando abri a janela do quarto era com a certeza de que o vento que vinha insuflar-me o pulmão o encheria de energias saudáveis. Não imaginava, contudo, que este ar estava cheio de carbono que comprimia os pulmões, tornando a respiração (minha e tua) mais insuportável. Deve-se, em suma, continuar a inspirar e a expirar-se surpreendentemente neste clima?
Os coniventes da ignominiosa ordem instaurada trouxeram-nos, ou melhor, deram-nos de presente, os invasores da imperiosa, odiosa e pecaminosa cooperação bandida. E nós, tal como otários, assistimos impotentes a nossa presumível perdição. Que maldição!
Volto às ínfimas gotas novembrinas que tão pequeninas fazem-se, quer por ventania, quer por tempestade, de singelos gestos singulares, exibindo sinais particulares de uma guerra fratricida não anunciada. E, por acaso, por alguém desejado?
Quem espera não conspira coopera. E, por isso mesmo, progride.
Por: Jorge Otinta é ensaísta e poeta.
O poeta sobrevive no meio do caos e mesmo que mergulhe na lama sairá limpo, purificado, porque a palavra o redime e salva. Vivam os poetas e a poesia, seu sangue e seu alimento.