Opinião: COVID-19 E A RIVALIDADE SINO-AMERICANA: UMA ANÁLISE SOBRE OS POSSÍVEIS IMPACTOS NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

A pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, a Covid-19, surgido em Wuhan (China), vem suscitando debates em múltiplos segmentos da sociedade e as preocupações têm girado em torno de seus possíveis impactos para o mundo. Aqui no Brasil, por exemplo, país no qual eu vivo, a preocupação do governo central, chefiado pelo Presidente Jair Messias Bolsonaro, tem sido com os impactos na seara econômica do país – que pode colapsar devido as medidas preventivas como o isolamento social adotadas pelos prefeitos e governadores para a contenção da mesma – as quais ele tem sido um ferrenho crítico. A preocupação com o desempenho da economia, de todo modo, não é exclusividade brasileira, é, sim, uma preocupação compartilhada por dezenas de países ao redor do globo – já que todos estão passando pela mesma situação, sobretudo, os países da periferia, os classificados como os países em vias do desenvolvimento. Alguns países africanos, latino-americanos, caribenhos e de oriente médio, que se configuram nessa lista, já estão sentindo fortes impactos resultantes dessa doença em suas economias – por entre outras coisas serem países com forte vocação em exportação de matérias primas, comodities e produtos com baixo valor agregado – dependendo assim, sobremaneira, de economias mais fortes como as dos países desenvolvidos para gerar divisas.

A covid-19, no entanto, impactará fortemente não apenas o campo econômico, mas sim diversos outros, como já está acontecendo, inclusive o da Relações Internacionais, até porque está se lidando com um fenômeno que é internacional/planetário, com impacto direto em numerosos países. As Relações Internacionais, ou melhor, o Sistema Internacional de Cooperação e de relações entre Estados será fortemente impactado pelos efeitos da doença em debate. E, em minha avaliação, como pesquisador e analista de Cooperação Internacional e Política Externa, os próximos tempos vão exigir expertise e estratégia dos estados nacionais, particularmente os atuais hegemons do sistema internacional (EUA, China, Rússia)  para melhor lidarem com os possíveis impactos do fenômeno e as complexas e desafiadoras questões geopolíticas e geoestratégicas no mundo pós pandemia. Neste ínterim, vale enaltecer, a guerra comercial sino-americana, que já estava em curso há algum tempo, tomará proporções ainda maiores e difíceis de prever.

As trocas de acusações entre os Estados Unidos e a China, sobre a proveniência e ou origem da pandemia, por exemplo, são sinal concreto do que nos aguarda num futuro não muito longínquo. Essas duas potências globais têm se estranhado fortemente desde o início do surto, mas não por acaso; o gigante asiático tem reivindicado, ao longo dos últimos anos, de maneira muito agressiva inclusive (com massiva expansão para África, América Latina, leste asiático e outras regiões) a revisão da atual ordem mundial; sua aliada, a Rússia, também não tem poupado o esforço para que isso ocorra – e os Estados Unidos, atual “ocupante do trono” não deixa, como era/é de se esperar, naturalmente. Essa “novela” certamente ganhará novos e fervorosos capítulos nos tempos que sucederão a pandemia e pode incluir vários outros players no jogo – o que significa que estamos provavelmente caminhando, a passos largos, para uma multipolaridade (em verdadeiro sentido do termo) do sistema internacional.

Dita de outra maneira, as acusações entre essas duas potências são extremamente graves e abrem precedentes imprevisíveis e com desdobramentos provável e potencialmente nocivos para o sistema-mundo como um todo. O espírito competitivo e egoísta das nações e seus policy-makers, como defende a teoria realista das Relações Internacionais, particularmente desses últimos, e, neste contexto em específico, em minha opinião, estarão quiçá mais vivas do que qualquer outro momento da nossa história moderna. O isolacionismo e ou protecionismo, aliás, talvez sejam termos muito fortes… o nacionalismo, melhor dizendo, quer queiramos ou não estará em voga nos próximos tempos. Um forte motivo para ficarmos preocupados (não quero com isso colocar medo em ninguém), sobretudo, nós de regiões menos desenvolvidos e competitivos. Sabem que somos os que sempre pagam o preço maior.

Não quero dizer com essa tese, vale assegurar, que o espírito cooperativo e colaborativo (principalmente entre essas potências) vai deixar de existir. Que isso fique bem claro! Até porque alguns domínios sociais exigirão desses e de praticamente todas as nações do mundo uma agenda comum de cooperação e colaboração para galvanizar consensos e assim encontrar saídas e soluções conjuntas para os diferentes problemas que assolam o planeta: o próprio domínio de saúde, que precisará de fortalecimento de sua principal organização, a OMS e também, não menos importante, de sistemas públicos de saúde nacionais dos países para enfrentamento de várias doenças, no futuro, é um deles; outro é o de ambiente, que, por exemplo, precisará de uma agenda comum e ambiciosa para que se possa enfrentar as mudanças climáticas e seus nefastos efeitos para a ecologia e o meio ambiente entre outros. Qualquer outra movimentação radical dos estados na contramão disso, em minha opinião, poderá resultar em consequências imensuráveis para toda humanidade, colocando todos, sem exceção, numa situação difícil.

Em outros termos, afirmar que o egoísmo e competitividade entre as nações continuarão a ecoar, e, talvez com maior fervor, não quer dizer que defendo a tese de que não mais existirá a possibilidade de elas cooperarem. Essa visão positivista e absolutista que permeou os primeiros debates no campo das Relações Internacionais realismo vs liberalismo (quem é da área sabe do que estou falando) parece não fazer mais muito sentido com a globalização. É um tema que tem dividido opinião e gerado muito debate e que não vou me aprofundar aqui, até porque não é o foco da minha abordagem. Mas uma coisa é certa: em minha opinião, claro, é no mínimo leviano (peço desculpas pelo uso do termo), por um lado, não reconhecer que, na atual configuração do sistema internacional, estão presentes o espírito competitivo, egoísta e de self-help dos Estados. Bem como, por outro, minimizar a possibilidade e relevância da cooperação interestatal e de outros agentes como as organizações internacionais e multilaterais. Os tempos mudaram e as relações internacionais também, vale lembrar. Existem divergências de opinião sobre essa questão, como já disse, mas para mim as duas teorias, no contexto do mundo atual, encontram seus devidos lugares, por assim dizer, particularmente nas análises dessa perspectiva.

Se o revisionismo chinês ou russo de fato vencerá a hegemonia e ou essencialismo norte americano essa resposta apenas o tempo dará de maneira efetiva, mas de uma coisa podemos ter certeza: depois dessa pandemia o Sistema Internacional de Cooperação  e ou as Relações Internacionais de maneira geral sofrerão profundas alterações e a arena internacional tornar-se-á um palco de elevados desafios para todas as nações, podendo assim precipitar alterações bruscas na ordem mundial. Ou seja, a referida pandemia, pelo menos da forma como surgiu e os prejuízos que vem causando abre precedentes para, daqui em diante, essas potências, sob discurso de defesa nacional e bem-estar da humanidade usarem todos os instrumentos disponíveis para atingirem seus objetivos, o que significa que poderá se usar, como apontam alguns especialistas, além de armamentos bélicos outras formas e meios de combate: biológico, bacteriológico, tecnológico etc. Espero estar errado com esses prognósticos e que possamos sair dessa para algo melhor, mas essa é a minha leitura sobre a questão. Esse pessimismo, porém, encontra respaldo no histórico da humanidade e o seu ego. Tucidides, Maquiavel e Morgenthau, clássicos da teoria realista das Relações Internacionais, já haviam pontuado isso há muitos anos. Cada um à sua maneira.

Os países da periferia e das regiões mais carenciadas (algumas das quais mencionadas no início desse texto) com sistemas de funcionalismo público estatal ineficaz e muito abaixo da média que se cuidem. Os riscos de endividamento externo, inclusive com severas condicionalidades, de aumento da pobreza, de mortalidade entre outras questões serão muito elevados. Os próximos tempos (que muitos apelidam de uma nova era) exigirão dos estados nacionais e seus decision-makers um forte espírito patriótico, nacionalista e desenvolvimentista. O desenvolvimento nacional, sobretudo nas áreas como: tecnologia, educação, saúde… e a capacidade de resposta as questões básicas do cotidiano terão que ser prioridades para estes estados em particular. Em suma, as Relações Internacionais como um todo, e, a política externa em particular, parafraseando Osvaldo Dehon, professor da Escola de Negócios de Belo Horizonte, não será mais assunto exclusivo de diplomatas e agentes de Estado e sim de segurança e defesa nacional.

Por: Deuinalom Fernando Cambanco,

Mestre em Relações Internacionais.

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