
São precisos 2 mil francos suíços para que a comitiva da Guiné-Bissau possa participar na competição. Cinco atletas de luta livre da Guiné-Bissau, entre os quais o tricampeão africano, Augusto Midana, “correm risco de não participar no próximo Campeonato do Mundo da modalidade” que se vai realizar na Sérvia, em Dezembro no ano em curso. Em causa está, segundo o Presidente da Federação de luta, João Bernardino Soares da Gama, a falta do pagamento da quota de 2020 na Federação Internacional da modalidade.
Em entrevista concedida ao Jornal O Democrata nesta terça-feira, 03 de novembro de 2020, Bernardino Soares da Gama disse que são precisos 2 mil francos suíços (mais de 1 milhão de francos FCFA) para que a delegação guineense possa participar na competição.
“Sempre buscamos a saída para os nossos problemas e neste momento estamos a negociar com a Federação Internacional da modalidade. Alegamos a situação do novo coronavírus que afetou o mundo e que levou o país a enfrentar dificuldades e que nos ajude a pagar a nossa quota anual em prestações, porque estamos com dificuldades financeiras enormes” explicou.
“Pensamos que estamos a correr forte risco em relação à nossa participação no mundial da Sérvia, mas vamos continuar a fazer o nosso esforço, tendo em conta os resultados que sempre alcançamos nas diferentes competições, para que nos possam dar a oportunidade de participar na competição”, acrescentou.
Segundo explicação de Soares da Gama, até ao momento a instituição federativa que dirige não tinha garantido ainda nada junto da federação internacional, mas também está a entabular contatos com algumas personalidades para poder encontrar apoio financeiro para resolver o problema da cota.
No documento facultado ao Democrata pelo órgão, os cinco atletas inscritos para o Mundial da modalidade na Sérvia, são: o tricampeão africano, Augusto Midana na categoria de 74 kg, Bedopassa Buassat Djonde na categoria de 86 kg, M’bundé Cumba M’bali na categoria de 65 kg, Diamantino Iuna Fafé na categoria de 57 kg e Debora Valeria Turé na categoria de 50 kg, única mulher entre os selecionados.
O responsável da Federação de Luta do país disse que para além da cota em atraso, os atletas em causa não recebem os seus subsídios de participação, nos últimos dois campeonatos africanos da modalidade em 2019 e 2020.
“Podem imaginar que até hoje a federação tem todo um mandato para o pagamento das nossas participações desde 2019, mas que nunca efetivou e recentemente voltamos a participar no campeonato da modalidade do ano em curso na Argélia e até a data presente não recebemos nada das entidades competentes. A nossa participação na altura foi garantida por um terceiro, que disponibilizou bilhetes para permitir a viagem dos atletas”, vincou Soares da Gama.
Segundo João Bernardino Soares da Gama, a soma em dívida aos atletas da Federação de Luta referente às últimas duas participações nas provas internacionais ronda os 31 milhões de Francos CFA, uma situação que desmotiva os atletas.
Perante este cenário, o presidente do organismo transmitiu ao Democrata que a Federação de Luta sente a falta do engajamento com os atletas dessa modalidade que já arrecadaram medalhas para a Guiné-Bissau.
“Sentimos, sim, a falta de atenção do executivo, porque pode imaginar nestas nossas participações nas competições, em nenhum momento o executivo disponibilizou a verba para a compra de bilhetes para a deslocação da caravana. Por isso, é preciso uma atenção da nossa federação, por causa da sua dimensão e resultados que conseguiu trazer para o país ao longo dos anos”, rematou.
Sem entrar nas divergências com outras modalidades desportivas, João Bernardino Soares da Gama fez lembrar às autoridades que é fundamental analisar os ganhos e benefícios que a participação da Federação de Luta conseguiu para a Guiné-Bissau.
Durante a mesma entrevista, Bernardino Soares da Gama revelou que, nos dois campeonatos africanos da modalidade na Tunísia 2019 e Argélia 2020, os atletas conseguiram trazer 8 medalhas para o país, entre as quais ouro, prata e bronze.
Soares da Gama explicou ainda que devido à falta de apoio financeiro dos sucessivos executivos, chegou a receber ameaças dos atletas no ano passado, ameaçando boicotar o Campeonato do Mundo da modalidade do Cazaquistão, mas que acabou por não acontecer devido ao diálogo interno.
Sobre a situação do tricampeão africano na categoria, Augusto Midana, Soares da Gama revelou que o atleta está na fase final da sua carreira internacional e o Campeonato de Mundo da Sérvia e os próximo Jogos Olímpicos serão as duas últimas provas do atleta.
De acordo com João Bernardino Soares da Gama, a Federação de Luta está a trabalhar com o Comité Olímpico nacional, com vista a conseguir um estágio para o atleta no estrangeiro antes da competição da Sérvia, porque Augusto Midana sente-se desmotivado neste momento devido à falta do apoio do executivo para com os atletas da modalidade.
“Estamos a trabalhar com o comité olímpico no sentido de garantirmos um estágio para o atleta para preparar-se da melhor forma, porque está um pouco perturbado, não tem motivação pelos seus esforços ao longo dos anos”, disse.
Numa recente entrevista à Rádio Jovem, Augusto Midana afirmou que o Estado da Guiné-Bissau não reconheceu o seu contributo na elevação do nome da Guiné-Bissau no certame internacional, na modalidade onde arrecadou várias medalhas.
De recordar que Midana já arrecadou 17 medalhas para o país: 10 em ouro, mais 7 entre prata e bronze.
Representou a Guiné-Bissau nos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, em Londres, quando terminou em 7º lugar. Em 2016, Augusto Midana representou pela terceira vez nos Jogos Olímpicos, desta vez no Rio de Janeiro.
No caso de a Guiné-Bissau resolver o problema da cota, Maidana voltará a marcar a sua presença no Campeonato Mundial da modalidade em Belgrado, Sérvia. O torneio decorrerá entre os dias 12 e 20 de dezembro na capital sérvia.
Durante a longa conversa com o Jornal O Democrata, o presidente da Federação de Luta do país, João Bernardino Soares da Gama abordou vários assuntos da atualidade da modalidade, com destaque para a evolução de alguns atletas como Bedopassa Buassat Djodje, que tem evoluído bastante nos últimos anos.
Por: Alison Cabral
Foto: A.C