O homem
se esforça
se multiplica,
se autocria escrupulosamente
nas deslocações imaginativas
para a solução do problema fundamental:
restringir-se
a uma negação absoluta.
Uma força
proporcional
o coloca à deriva
Ele, como se fosse uma fantasia,
ou um capricho dissolvente
de um destino mofino.
Apesar do que tenho visto
e imaginado
e pensado
e sentido
e vivido
imagino a minha Bissau
que me mete medo
à vista,
pois, quando a cidade cala
o país chora
Doismilenove
num áspero março estrondoso,
pecaminoso
a seguir-lhe
junho criminoso
abrem-se, em mim, os arsenais
da discórdia
que me conduz
ao rés-do-chão
da história menina
que, sem começar, termina
na chuva de sangue fina.
Poesia,
Meus olhos
ávidos de utopias
contradizem-se
com meus dias ácidos
de tensas ventanias
e de últimas recordações
que o Cais (não) esquece
imolações,
frustrações
lamentos de minha perdição
não fosse a teimosa fé
na singidura feição
do meu lopé1.
Algumas kassabis3sme perseguem
e, paralelamente, algumas saburas45 persistem
muitas léguas
a atravessar
quiçá, um dia de ternura
há-de vir
se o sonho
assim o convir.
Poesia, Contos e Outras Prosas – Jorge Otinta
In Revista Crioula – nº 11 – Maio de 2012
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1 Singidura di lopé, no kriol guineense, significa o nó do pano tradicional usado na cintura pelos homens da tabanka (aldeia).
BISSAU….
bissau
cidade
de sons
dores
e sabores
bissau dos gintons2
tons
tambores
novidades
de gente de idade perdida
gente confundida
urbe dos apertadinhos
namoricos de ruas
tortuosas
frias brisas pindjiguytianas3
de noites
quentes e calientes
cidade beleza
de cidadãos de pés descalços
pois ainda laços
os separam da unidade ao progresso
bissau de cenas que atiçam
desejos
excitam nossos “ps”
discursatas
políticas
e futricas
manjuas4
das joanas
mistidas5 das amélias
manxidas6
das camélias
cidade de troços
e almoços
vazios de homens
mulheres
bissau
alfa e ômega
merda que se herda
imbecil que se gera
do milho bacil7
capital de gente órfão de pensamentos
crianças desesperançosas
de um certo destino
coberto de desmandos
cidade sensação
eu te vejo em kussilintra8
te encontro em varela
bela e singela
cheia de meiguice de pikil9
filha querida da guiné
terra de ilhas exóticas
quiçá eróticas
de serenas sereias
peixes bús10
– linda
bissau
saudade próxima e distante
que corrói a alma
bissau, menina-flor,
que embeleza o jardim
do meu ser e o torna real
a minha quiçá
a tua talvez
a nossa digamos (in) completude.
Jorge Otinta – araruama (rio de janeiro), fevereiro/ 2000.
In Revista Crioula – nº 5 – maio de 2009
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2 Gintons, kriolo guineense: uma pessoa da elite meio aburguesada (un pétit
bourgeoise).
3 Pindjiguity: renomado porto bissauense onde ocorreu em 3 de Agosto de 1959,
o massacre-mor que viria a inspirar decisivamente a gloriosa luta de libertação
nacional empreendida pelo PAICC (protagonista da nacionalidade guineense).
4 Manjua, lê-se “mandjua”: irmandade, mas não no sentido religioso, e sim no
sentido de convivência de pessoas da mesma faixa etária.
5 Mistida, kriolo guineense: negócio, afazer, desejos, aspirações.
6 Manxida, kriolo guineense: confraternização, ocorre nos festejos fúnebres,
conhecidos por toca-choro, em memória do defunto, com comes e bebes. E também
pode ser uma grande festa.
7 Milho Bacil: o milho amarelo, com o qual é feito a pamonha; assim é como
designamos na Guiné-Bissau.
8 Kussilintra: uma cachoeira da Guiné-Bissau que fica no Leste do país.
9 Pikil: santuário mítico e religioso dos pepéis; é também uma linda praia, fica na
região de Biombo, Guiné-Bissau.
10 Peixe-bús: peixe corpulento, encontrado nas águas da Guiné-Bissau,
assemelha-se ao corpo de uma mulher.