Editorial: O PROFANADOR NÃO É INOCENTE!

Mais um episódio vergonhoso e covarde contra um lugar de culto. Contra uma igreja. No coração de Gabú, uma cidade até aqui conhecida pela sua invejável diversidade cultural, étnica e religiosa. Quem conhece Gabú Sahara pode testemunhar a pluralidade da sua gente. Os grupos étnicos e religiosos coabitam na diversidade e comungam o orgulho de pertencerem ao mesmo espaço geográfico.

Gabú é também conhecida pela sua vitalidade política derivada de uma longa tradição histórica ainda bem presente e percetível, sobretudo durante os períodos eleitorais.

O último ataque à igreja católica na maior cidade do leste do país, para além de ser um ato de profanação de local de culto, constitui um atentado à saudável convivência entre os diferentes grupos da cidade. Longe de ser um ato inocente ou um ato isolado (que se tornou uma norma nos últimos tempos), trata-se de uma ameaça contra a coabitação pacífica, contra o saber viver na diferença.

O profanador não é inocente. Isolado também não é. É um consciente, que sabe muito bem o valor dos símbolos que metodicamente atacou. Perante o sucedido, eis algumas questões que não queremos calar: porque atos do género só acontece agora?  Como explicar a tamanha fuga em frente das autoridades do país em qualificar de isolado, um ato ainda sob investigação policial? A quem beneficia a “isenção” de responsabilidade através de narrativa de sistemáticos “atos isolados”?

O objetivo do profanador é lançar sementes de desconfiança no seio das comunidades de Gabú e de todo o país. Dividir para melhor reinar e dominar. A intolerância religiosa, o radicalismo, ou extremismo, embora não sendo umas características da sociedade guineense, não podem ser ignoradas nos dias que correm. A proliferação, no campo político, de narrativas susceptíveis de encorajar o radicalismo e o  extremismo é uma realidade que põe em causa a tradição pacifista dos guineenses.

Para evitar o pior, o povo tem que estar vigilante e não se dar ao luxo de cair no esquema do sectarismo estéril. O verdadeiro inimigo do povo não é a diferença religiosa ou étnica. O verdadeiro inimigo é a extrema miséria que afeta mais de 80 por cento da população. O verdadeiro inimigo é o sistema que promove a miséria. São estes dois inimigos que o povo deve preparar-se para enfrentar.

Por: Armando Lona/Editor Chefe

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