BERCOLOM – UMA ALDEIA DA REGIÃO DE BOLAMA NO CONTINENTE, QUE IMPLORA PELA ESCOLA E SAÚDE   

Os populares da aldeia de Bercolom imploram às autoridades centrais do país por água potável, escola, saúde e pelo menos, postos de iluminação solar para clarear as pequenas ruas a noite, de forma a garantir um pouco de segurança à aldeia, contra os ladrões que roubam as suas crias de animais no calar da noite. 

Bercolom é umas das tabancas que está no continente e quase colada à região de Quínara, mas administrativamente ligada à secção de São João (Sandjon), setor de Bolama, região de Bolama/Bijagós, no sul da Guiné-Bissau. A comunidade de Bercolom constituída por cinco aldeias, designadamente, Bercolom, Gã-Sene, Gã-Tchaba, Gã-Mindjor e Gã-Marques. 

O centro de saúde (do tipo C) que oferece o serviço sanitário à comunidade daquela zona e cujo edifício está em avançado estado de degradação, está na aldeia de Gã-Marques, que dista um (01) quilómetro de BERCOLOM, que também tem uma escola do ensino básico comunitário, de 1º ao 6º ano de escolaridade, construída pela comunidade. 

A população local sobrevive de atividades agrícolas com pequenas produções de arroz, mancarra, feijão, tubérculos e milho. O cultivo de cajú é a maior atividade ou produção feita pela comunidade, através do qual garante dinheiro para as suas necessidades.  A questão das infraestruturas rodoviárias é o maior handicap daquela zona, a população vive confortada com a situação, mas clama ajuda das autoridades centrais pelo menos, com água potável, escola, saúde e lanternas solares para clarear as pequenas ruas a noite.  

Apesar da degradação da estrada e a insuficiência dos técnicos de saúde no pequeno hospital de Gã-Marques, a população utiliza motorizadas para transportar os pacientes para o hospital de Tite e muitas vezes preferem deslocar-se de pirogas para o hospital regional de Bolama.  

CHEFE DE TABANCA PEDE AO GOVERNO UM LICEU NA SECÇÃO PARA EVITAR SAÍDA CEDO DE SEUS FILHOS

O comité de tabanca de Bercolom, Lassana Djassi, disse que a escassez de água potável é um dos maiores problemas que a sua comunidade enfrenta de momento e se agudiza mais no período da seca. Acrescentou que outras dores de cabeça da comunidade são a falta de mão de obra para ajudar no trabalho de campo, “porque os nossos filhos saem muito cedo para irem continuar os seusestudos nos liceus, nas grandes cidades ou na ilha de Bolama”. 

“Temos apenas do 1º ao 6º ano de escolaridade e as crianças são obrigadas a sair da aldeia tão cedo para irempara outras cidades para continuar o estudo no liceu e aquelas que não têm parentes ou familiares que possam recebê-las acabam por desistir. Por isso pedimos às autoridades que nos construam uma escola para liceu com maior capacidade nesta secção”, disse, avançando que a necessidade de implementar o ensino liceal naquela zona e do estado avançado da degradação da escola construída pela comunidade local, são do conhecimento dos responsáveis da delegacia regional da educação.  

“Este ano, por causa da chuva caiu um dos pavilhões e fomos nós que nos mobilizamos através do fundo comunitário para reconstruir o pavilhão para que os alunos pudessem estudar este ano letivo, mas isso não é suficiente, porque resta ainda a parte da varanda e também terminar a reabilitação da parede”, disse.

Relativamente à questão de segurança na aldeia, Djassi explicou que é a própria comunidade que se mobiliza para assegurar a tabanca de roubos de animais, “porque não temos a presença de forças de segurança nesta secção que garantam a nossa segurança e dos nossos bens”, enfatizando que os conflitos registados na aldeia ou os roubos são resolvidos na base de uma plataforma de diálogo tradicional, evitando que o assunto chegue às autoridades policiais ou judiciais em Tite ou Bolama.

Outra preocupação levantada pelo responsável de tabanca na entrevista, tem a ver com a falta de meios de transportes que lhes permitam escoar os seus produtos para as pequenas cidades por causa das más condições da estrada. 

“Recorremos ao uso de moto-carros ou motorizadas para deslocarmo-nos de uma aldeia para outra. Os moto-carros cobram a uma pessoa do Porto de Enxude para a aldeia de Bercolom entre 750 a 1000 francos cfa”, contou.  

ESCOLA DE BERCOLOM ENTRE A PRECARIEDADE DE INFRAESTRUTURA E O SONHO DE FORMAR HOMEM NOVO

A nossa equipa de reportagem visitou o recinto da escola e constatou a situação da precariedade da infraestrutura, desde a cobertura até as carteiras. A escola não tem a iluminação nem de painel solar. Contudo, conta com duas torneiras de água que se diz ser potável cujofuncionamento está condicionado pela fraca capacidade do painel solar que sustenta a eletrobomba.

O diretor do ensino básico de Bercolom, Lúcio da Silva, explicou que a escola que dirige tem quatro salas de aulas funcionais e oito professores que lecionam do primeiro aosexto ano em dois turnos, manhã e à tarde.

No que concerne a situação da degradação da escola e acima de tudo de carteiras, o diretor da escola disse queessas situações são do conhecimento da delegacia regional de educação, “porque que em cada ano enviamos relatório sobre a situação da escola, espelhando todos os aspetos, nomeadamente, a situação das infraestruturas escolares, quadro de pessoal docente e não docente, falta de casas de banho na escola entre outros assuntos”.

Em termos de aproveitamento por parte dos alunos, assegurou que os estes têm melhorado os seus rendimentos académicos e realçou que o número de casos de abandono escolar tem diminuído bastante e que mesmo no período da colheita da castanha de cajú, que é o momento em que se registam muitos casos de abandono escolar por causa da colheita da castanha de cajú a diminuição é notável. 

Explicou ainda que a redução de casos de abandono escolar deve-se a uma campanha de sensibilização feita junto dos pais e encarregados de educação sobre a importância de deixar as crianças na escola. 

Relativamente à taxa de frequência de géneros à escola, informou que o sexo masculino continua a ser a mais alta, apesar de casos da estigmatização registada a nível das meninas, mas nota-se o crescimento bastante da taxa de frequência escolar das meninas.

Sobre o pagamento de propina escolar, lembrou que a lei base do sistema educativo prevê a isenção de pagamento de propina nos níveis a partir da pré primária ao sexto ano. Confirmou à repórter que a sua escola é uma das beneficiárias do programa de apoio às cantinas escolares.

“Quero aproveitar esta ocasião para pedir às diferentes entidades, nomeadamente ONG´s e projetos que operam nesta zona para apoiar na construção de infraestruturas escolares que permitam às crianças aprender da melhor forma, porque o Estado tem dificuldades em satisfazer todas as necessidades das populações. Conseguimos inscrever 170 alunos, mas continuamos a receber alunos que vêm de outras zonas mais longe”, sublinhou.

POPULARES DE BERCOLOM À BRAÇOS COM FOME PEDEM APOIO ÀS AUTORIDADES

O responsável da juventude da aldeia de Bercolom ouvidopela repórter, Braima Djassi, mostrou-se preocupado com a falta de espaço para a prática de agricultura para garantir sustento familiar, lamentando o risco de fome que a aldeia é capaz de enfrentar nos próximos tempos.  

Preocupado com a fuga de jovens para outras cidades (Bolama, Tite, Buba e Bissau) causada pela falta de escolas e níveis, disse que esta situação esta a contribuir para a fraca produção agrícola na tabanca, que faz uma agricultura de sobrevivência de diversos produtos, desde arroz, feijão, mancarra, tubérculos e outros produtos. Acrescentou que a produção diminuiu muito devido à falta de mão de obra ou de rapazes na aldeia para realizar os trabalhos que implicam muita força no campo e que a população depende agora essencialmente da produção da castanha de cajú. 

O responsável da juventude pediu a intervenção do governo e das organizações que operam na área daagricultura no sentido de ajudá-los a recuperar as suas bolanhas, bem como nos materiais de produção agrícola para poderem evitar a fome. 

Revelou na entrevista que o arroz de saco vendido na secção e também na aldeia, por exemplo, o arroz partido, custa entre 24 a 25 mil francos cfa por saco de 50 quilogramas, enquanto arroz grosso é comprado ao preço de 30 mil francos cfa, por saco de 50 quilogramas. 

Falou a repórter de uma iniciativa levada a cabo pela juventude da sua aldeia em resposta à falta de mão de obra, na qual criaram um grupo de trabalho que trabalha nos campos agrícolas no período das férias escolares na base de um preço simbólico cobrado à quem solicita os seus serviços. 

“Estes fundos são utilizados para a construção de escolas e fontanários em benefício da própria comunidade. Uma parte do fundo é tirado para conceder créditos às pessoas em sérios problemas e solicitam o fundo para resolver os seus problemas, depois devolvem à taxas de juros aplicadas”, contou.  

PREVALÊNCIA DO VIH-SIDA NA SECÇÃO DE GÃ-MARQUES PREOCUPA ENFERMEIRO 

O centro de saúde (tipo C) localizado em Gã-Marques não tem parteira e funciona apenas com três enfermeiros, sem meios de evacuação (piroga) para Bolama e viatura ou moto-carro para a cidade de Tite.      

Interpelado pela repórter, o enfermeiro do centro de saúde da secção de Gã-Marques, Isaque João Intchame, informou que as doenças mais frequentes são a gripe devido às condições que as populações vivem na aldeia, também registam casos de paludismo e que não são muito frequentes.   

Explicou, neste particular, que o centro cobre mais de 20 aldeias, incluindo arredores, e que a maioria das suas populações percorrem quilómetros à procura de consultas e atendimento pelos profissionais de saúde, mas lamentou que o atendimento seja limitado devido à falta de capacidade do próprio centro.

Informou que enfrentam dificuldades para evacuar os doentes para o Centro de Saúde de São João e para o hospital de Bolama por causa da falta de meios de transportes, que muitas vezes lhes limita a fazerem os seus trabalhos como técnicos.

“Recebemos grávidas no momento de consulta, mas o maior problema é no momento do parto, porque nesta zona existe ainda tabus em como o homem não pode dar assistência de parto à mulher. Aqui somos três técnicos, todos são homens. Por isso é que não temos estatística sobre taxa de mortalidade durante o parto e a maioria das grávidas resolvem ir para Bolama e Bissau para darem à luz”, contou.

Sobre a situação do HIV-Sida e Tuberculose, explicou que tem um paciente com tuberculose e que está a receber tratamento no centro. Sublinhou que a prevalência do HIV- Sida está a aumentar na secção, frisando que estão em tratamento 23 pessoas e que os casos se registam mais a partir de adolescentes de 15 anos para cima e maior número são mulheres.

Por: Epifânia Mendonça

Author: O DEMOCRATA

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