Impasse na Fronteira: CÔNSUL GUINEENSE SEM RESPOSTA DE BISSAU E DE ZIGUINCHOR SOBRE PARALISAÇÃO DOS TRANSPORTES

O cônsul da Guiné-Bissau em Ziguinchor, Orlando Wam Sambú, revelou que o Consulado comunicou oficialmente às autoridades competentes as dificuldades relacionadas com a circulação de viaturas entre a Guiné-Bissau e o Senegal e realizou diligências junto das partes envolvidas para procurar soluções para o problema.

“Fizemos aquilo que está ao nosso alcance. Enviámos uma carta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e ao Governador da Região de Ziguinchor, informando-os sobre o sucedido, mas, até hoje, não recebemos qualquer resposta”, afirmou em entrevista ao jornal O Democrata.

O diplomata acrescentou que o assunto está a ser tratado ao mais alto nível, razão pela qual preferiu não avançar mais detalhes.

“INFORMÁMOS O GOVERNO DE BISSAU E AS AUTORIDADES DE ZIGUINCHOR”

O Democrata apurou que, desde 12 de agosto deste ano, os transportes públicos da Guiné-Bissau deixaram de entrar no Senegal, deixando de seguir diretamente para a central de transportes de Ziguinchor, como acontecia habitualmente. Em sentido inverso, os veículos de transporte público senegaleses também deixaram de entrar em território guineense.

A situação tem provocado sérios constrangimentos aos cidadãos dos dois países, particularmente aos guineenses, que são obrigados a recorrer a mototáxis entre Djegue, na fronteira, e Mpack, no Senegal, pagando por vezes cerca de cinco mil francos CFA. Posteriormente, têm ainda de utilizar um transporte público até à central de transportes de Ziguinchor, mediante o pagamento adicional de mil francos CFA.

“O assunto está a ser tratado ao mais alto nível. Por isso, não posso avançar com mais detalhes. Estamos a aguardar as medidas que serão tomadas pelos dois governos para resolver este problema”, declarou aos enviados especiais do Jornal O Democrata, que estiveram na semana passada em Ziguinchor para acompanhar a situação.

Orlando Wam Sambú revelou igualmente que a maioria dos cidadãos guineenses residentes em Ziguinchor não possui cartão consular, situação que, segundo disse, está na origem de vários problemas relacionados com a documentação e a circulação.

Por isso, apelou aos guineenses residentes no Senegal para regularizarem a sua situação junto do Consulado, lembrando que o cartão consular é frequentemente solicitado pelas autoridades senegalesas.

“Os cidadãos têm a obrigação de possuir documentos. Se não tiverem documentos, terão dificuldades para circular”, advertiu.

O cônsul acrescentou que, durante ações de fiscalização, para além do bilhete de identidade ou do passaporte, as autoridades podem igualmente solicitar o cartão consular.

Segundo explicou, muitos cidadãos apenas procuram os serviços consulares quando enfrentam problemas com as autoridades locais.

“Muitos dos nossos cidadãos só aparecem no Consulado quando têm problemas. Nesses casos, somos obrigados a fazer diligências para encontrar uma solução”, referiu.

Orlando Wam Sambú assinalou ainda a existência de vários casos envolvendo cidadãos guineenses e as forças policiais senegalesas, sobretudo por falta de documentação adequada.

Questionado sobre denúncias de alegadas cobranças ilícitas nas zonas fronteiriças entre a Guiné-Bissau e o Senegal, o diplomata reconheceu a existência de situações de tensão, mas considerou que determinados comportamentos também contribuem para o agravamento dos conflitos.

“Assisti várias vezes a discussões entre os nossos cidadãos e as autoridades”, relatou.

Segundo explicou, alguns cidadãos chegam a insultar agentes das autoridades em crioulo quando se sentem insatisfeitos com a demora na devolução dos seus documentos.

“Nós tentamos resolver todos os problemas que estão ao nosso alcance e que justificam uma intervenção do Consulado”, garantiu.

CÔNSUL: “MAIS DE TRÊS MIL GUINEENSES VIVEM E TRABALHAM EM ZIGUINCHOR”

Apesar das dificuldades, Orlando Wam Sambú considera que as relações entre a Guiné-Bissau e o Senegal permanecem positivas.

“O Senegal é um país amigo e irmão da Guiné-Bissau. Existe sempre uma boa relação entre os dois países”, afirmou.

Recordou ainda que o Consulado da Guiné-Bissau em Ziguinchor está instalado desde 1982.

O responsável consular explicou que parte dos problemas decorre da aplicação das normas e regulamentos de cada país numa região caracterizada por intensa circulação de pessoas e mercadorias.

“Existe uma grande circulação de pessoas e bens na fronteira. Muitos guineenses atravessam a fronteira para cultivar as suas terras e os senegaleses fazem igualmente o mesmo”, observou.

Sambú reconheceu não dispor de dados totalmente atualizados sobre a comunidade guineense residente em Ziguinchor, uma vez que muitos cidadãos adquiriram documentação senegalesa.

Ainda assim, estima que mais de três mil guineenses vivam atualmente na cidade.

“No passado, tínhamos registados mais de 800 guineenses”, precisou ao jornal O Democrata.

Segundo o diplomata, o Senegal continua a acolher a maior comunidade guineense na diáspora, particularmente em Ziguinchor e Dakar.

O Consulado, disse, mantém um acompanhamento regular das associações de guineenses e procura responder às principais preocupações da comunidade.

No domínio da educação, a instituição acompanha também os estudantes guineenses, identificando os locais de residência, os estabelecimentos de ensino frequentados e a sua evolução académica.

Orlando Wam Sambú revelou que o número de estudantes guineenses em Ziguinchor tem diminuído nos últimos anos.

Atualmente, os estudantes frequentam instituições como o Instituto Superior de Gestão (ISM), a Universidade Católica da África Ocidental (UCAO) e a Universidade Assane Seck.

Segundo explicou, o Consulado estabeleceu contactos com a Universidade Assane Seck para facilitar o acesso dos estudantes guineenses a bolsas de estudo.

“Neste ano letivo enviámos à universidade os processos de sete estudantes que solicitaram bolsas através do Consulado”, informou.

Questionado sobre as principais dificuldades enfrentadas pela representação diplomática, preferiu não entrar em pormenores.

“Existem dificuldades, mas cabe ao Governo procurar as soluções. É tudo o que posso dizer”, declarou.

Na mensagem dirigida à comunidade guineense residente no Senegal, apelou à unidade e ao respeito pelas leis do país de acolhimento.

“Quero pedir aos guineenses que se mantenham unidos, fortes e conscientes de que estão num país estrangeiro. Devem respeitar as leis e as regras do país onde vivem”, afirmou.

SEM ACORDO DE COOPERAÇÃO NA EDUCAÇÃO, CONSULADO FACILITA ACESSO AO ENSINO SUPERIOR PÚBLICO

Por sua vez, o secretário do Consulado, Mamadjam Djaló, esclareceu que atualmente não existe qualquer acordo formal de cooperação entre a Guiné-Bissau e o Senegal no setor da educação.

Contudo, devido ao significativo fluxo de estudantes guineenses para Ziguinchor, o Consulado estabeleceu uma parceria com a Universidade Assane Seck para facilitar o acesso ao ensino superior público e reduzir os custos suportados pelos estudantes.

“A nível do Consulado, tivemos de estabelecer contactos com a universidade pública para minimizar as dificuldades dos estudantes guineenses, porque as instituições privadas são bastante dispendiosas”, explicou aos enviados especiais de O Democrata.

No âmbito desta parceria, os estudantes selecionados pagam uma propina anual de 35 mil francos CFA.

Mamadjam Djaló revelou ainda que os beneficiários têm acesso à cantina universitária, onde podem tomar pequeno-almoço, almoçar e jantar por apenas 300 francos CFA por dia.

Segundo explicou, um pagamento mensal de nove mil francos CFA permite garantir as refeições durante todo o mês, sendo o alojamento o único benefício não abrangido pelo acordo.

O responsável informou que a parceria com a Universidade Assane Seck teve início em 2015 e já permitiu o acesso de diversos estudantes guineenses a cursos como Medicina, Línguas Estrangeiras Aplicadas, Economia, Contabilidade, Física, Matemática e Administração.

Recordou igualmente que, em anos anteriores, Ziguinchor chegou a acolher cerca de 800 estudantes guineenses, número que caiu consideravelmente.

“Hoje muitos procuram Portugal. No entanto, quando chegam lá, a maioria acaba por não prosseguir os estudos”, afirmou.

Atualmente, segundo Mamadjam Djaló, existem cerca de 40 estudantes guineenses em Ziguinchor.

O secretário do Consulado apelou aos estudantes para que se registem junto da instituição e possam beneficiar das oportunidades disponibilizadas através da universidade pública.

“A porta do Consulado está aberta. Apelo aos estudantes para que venham inscrever-se e aproveitar as oportunidades existentes”, declarou.

Mamadjam Djaló garantiu que a relação institucional com a Universidade Assane Seck continua positiva e que os estudantes encaminhados pelo Consulado são bem recebidos.

Segundo explicou, entre os fatores que explicam a redução do número de estudantes encontram-se os elevados custos do ensino privado, as desistências e a perda de vagas devido às reprovações sucessivas.

Por: Tiago Seide e Alison Cabral

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